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quinta-feira, novembro 11, 2010

Obituário de um burocrata triste

Nasceu, cresceu e virou adulto dando, nas duas primeiras etapas, mais atenção ao que estava por vir na terceira. Daí trabalhou, foi promovido, sentiu-se confortável com tudo aquilo que conseguiu. Desistiu. Mudou de rumo, pura vontade de repetir o caminho desde o começo.

Trabalhou, trabalhou, não foi promovido. Demitiu-se. Trabalhou mais, trabalhou muito mais, foi promovido. Sentiu-se confortável. Muito confortável. E ali, no comando, realizou tudo o que queria. Tudo mesmo. Era como se a vida profissional completasse todos os outros campos, onde nada acontecia - ou ao menos não com a graça que ele gostaria. E viveu bem assim, por uns 30 anos.

Aí, chegou a aposentadoria, a pressão para que parasse de trabalhar. Não quis parar, nunca queria parar. Pararam com ele. Viveu sua velhice amargurado, como quem não quisesse vivê-la. Mais vinte anos. Vinte demorados, demasiados, exagerados e custosos anos. Morreu.

No obituário, dois parágrafos apenas para enumerar realizações de sua brilhante carreira. Entrou para os anais de sua área de atuação. Partiu desta cheio de predicados, embora infeliz. Foi embora resignado, achando nunca ter sido aquilo que realmente fora. Nem o que queria ter sido.

quinta-feira, abril 23, 2009

A hora e a vez de Susan Boyle

Semana passada, como grande parte do mundo, eu conheci Susan Boyle. Uma inglesa de quase 50, que nunca foi beijada ou tocada. Virgem. Feia. E que se submeteu a um julgamento cruel do júri de uma espécie de American Idol local. E das mais de mil (acho que até bem mais que isso) pessoas que estavam na platéia.

Ela foi ridicularizada. Riram dela. Gargalharam. Até ela abrir a boca e cantar. Então todos se calaram, e aplaudiram. Muitos, como eu, choraram. Em maior ou menor grau, quem assistiu aquilo se emocionou. E então ela foi aprovada, passou para a próxima fase.

Aí me bateu uma sensação esquisita. Sempre acontece nesses casos. É meio dó, meio melancolia, meio felicidade. Mas como três meios são mais que um inteiro, continuo sem entender o que é isso ao certo. O mesmo acontece em outras situações. Como quando escuto "Mais de mil palhaços no salão", sabe, aquela música de carnaval linda?

Toda vez que aparece algo bonito e sutil, mas meio resignado, me causa uma sensação entre o alegre e o triste. Uma espécie de alvorecer de sentimentos, que não é noite, nem dia. É aquilo.

Não sei se, de repente, eu queria no fundo que ela fosse mais feliz, bem-sucedida e não estivesse sujeita a esses julgamentos rasos só porque seu histórico estético-psicológico não a favorece. Nem que dependesse de um bando de pessoas estúpidas, com poder de decisão para ser reconhecida e feliz.

É estranho. E como aprendi uma vez, o que nos causa estranhamento tem que ser discutido, posto em evidência - de repente até virar uma boa pauta. Ou uma boa sessão de terapia. Depende sempre do tratamento que damos às coisas. De qualquer maneira, fiquei muito feliz com o caso da Susan Boyle. E torço para que seu sucesso a deixe mais feliz. É uma maneira de lidar melhor com essa sensação que sinto, mas não entendo.