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terça-feira, julho 07, 2009

O que aprendi com Gay Talese

A avalanche de informações às vezes nos obriga a parar. Nem que parar signifique viajar num final de semana e voltar renovado, mesmo que mais cansado que antes. Foi o que aconteceu comigo sábado, quando fui para a Flip assistir a palestra do Gay Talese, pai do new jornalism (mesmo que ele refute tal termo e, por conseguinte, o título também).

O que aprendi com ele? Bem, que de fato as boas histórias estão na rua. E, mais importante, que temos de pensar na internet como um aliado, e não como uma ferramenta que nos trancafie dentro da redação. Isso, vindo de alguém que não tem e-mail, celular ou que não usa a internet pode soar estranho, mas estranhamente faz sentido.

O que ficou mais patente é que boas histórias serão sempre boas histórias. E que alguém tem que contá-las, porque há quem espere por elas. Para tornar isso algo mais real, acredito que devemos apenas saber adaptar boas histórias às mídias certas. Que vida vale um post, que acontecimento vale uma página, que notícia vale 140 caracteres no Twitter?

Essa pergunta fica no ar, o que é ótimo. Regras ainda não formadas permitem o risco. Arriscar é bom - e parece que essa alternativa vai perdendo força conforme vamos ganhando experiência. Quase uma praga.

E, por fim, encerro com o que o escritor disse, ainda há pouco: "Acredito que um dia haverá dinheiro para sustentar qualidade [editorial]". Há conversas, palestras, entrevistas que mais confundem do que explicam. É que uma nova opinião, um novo pensamento está por se formar. E assim vamos vivendo. Nesse sentido, tudo é burilamento.




>>>a foto aí de cima é usada sob licença Creative Commons. Para conhecer melhor o trabalho desse artista que acredita no compartilhamento de conteúdo de forma gratuita e honesta, vá para esse link_http://tiny.cc/capamirim<<<

quarta-feira, abril 29, 2009

A força do personagem

Ontem assisti à uma palestra esclarecedora. Uma das melhores que já vi; certamente a mais instrutiva de que tenho notícia. Era com a Eliane Brum, repórter da Época. Basicamente, foram duas horas e meia de conversa sobre como mostrar grandes personagens sem resvalar no clichê. E não me refiro a celebridades, artistas ou qualquer ser que esteja presente nas páginas de revistas de fofoca. São os ilustres desconhecidos do cotidiano, tão bem registrados por ela.

Mas o que mais me chamou atenção é que a capacidade de encontrar boas histórias está intimamente ligada à disponibilidade de quem as conta. Ou seja, o repórter (ou quem mais queira contar uma história, num sentido mais amplo) precisa estar disposto a entrar em contato com o outro.

E estar em contato com o outro é se colocar em contato consigo mesmo. Como disse Eliane, poeticamente, "temos que estar abertos ao espanto". Temos que confrontar nossas fissuras; é um constante se colocar em xeque. É quase uma terapia. E aí é possível entender o que ela dissera um pouco antes: "Só quem é frágil e finito pode contar histórias". Faz sentido.

Ficou claro, também, que boas histórias acabam sendo contadas por pessoas boas, no sentido mais amplo da palavra. Não me refiro só a competência, nem só técnica. São importantes, mas muito fáceis de se adquirir se a compararmos aos sentimentos que algumas pessoas mostram, mesmo sem se deixar ver.

Pessoas que não precisam de credenciais para entrar na casa dos mais simples cidadãos e ouvir suas histórias. Pessoas que dizem mais pelo que são do que mostram ser. Pessoas que conseguem enxergar além. Por fim, uma alegoria ótima para se começar a quarta-feira, citada por Eliane: "O cotidiano é uma catarata que nos cega dia a dia".

Fica, além de um bom dia, o desejo sincero de não querer se cegar pela catarata do dia a dia. E, cada vez mais, conseguir contar boas histórias, grandes histórias, de pessoas que nos parecem pequenas, miúdas, mas que acabam se tornando grandes lições de vida. Sem cair no clichê, nem soar piegas.