- E a desidrose, como está?
- Bem doutora. Quer dizer, do mesmo jeito. Não passei aquela pomada, acho incômoda.
- Ah tá. E a questão do nervosismo. Porque você sabe, a desidrose é causada por nervosismo...
- Continuo nervoso, como de costume. Mas é normal, sou assim.
- (pausa) Ô bem, com o que você trabalha?
- Sou jornalista, doutora.
- Ah! (abre um sorriso) Então está explicado. Normal. Ó, toma esse remédio aqui quando a coisa piorar - mas só quando estiver bem ruim, porque ele é meio forte, tá bom? Mas jornalista... Bom, é normal ser assim, meio nervoso.
- (silêncio) Obrigado, doutora.
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quarta-feira, fevereiro 09, 2011
terça-feira, julho 07, 2009
O que aprendi com Gay Talese
A avalanche de informações às vezes nos obriga a parar. Nem que parar signifique viajar num final de semana e voltar renovado, mesmo que mais cansado que antes. Foi o que aconteceu comigo sábado, quando fui para a Flip assistir a palestra do Gay Talese, pai do new jornalism (mesmo que ele refute tal termo e, por conseguinte, o título também).
O que aprendi com ele? Bem, que de fato as boas histórias estão na rua. E, mais importante, que temos de pensar na internet como um aliado, e não como uma ferramenta que nos trancafie dentro da redação. Isso, vindo de alguém que não tem e-mail, celular ou que não usa a internet pode soar estranho, mas estranhamente faz sentido.
O que ficou mais patente é que boas histórias serão sempre boas histórias. E que alguém tem que contá-las, porque há quem espere por elas. Para tornar isso algo mais real, acredito que devemos apenas saber adaptar boas histórias às mídias certas. Que vida vale um post, que acontecimento vale uma página, que notícia vale 140 caracteres no Twitter?
Essa pergunta fica no ar, o que é ótimo. Regras ainda não formadas permitem o risco. Arriscar é bom - e parece que essa alternativa vai perdendo força conforme vamos ganhando experiência. Quase uma praga.
E, por fim, encerro com o que o escritor disse, ainda há pouco: "Acredito que um dia haverá dinheiro para sustentar qualidade [editorial]". Há conversas, palestras, entrevistas que mais confundem do que explicam. É que uma nova opinião, um novo pensamento está por se formar. E assim vamos vivendo. Nesse sentido, tudo é burilamento.
>>>a foto aí de cima é usada sob licença Creative Commons. Para conhecer melhor o trabalho desse artista que acredita no compartilhamento de conteúdo de forma gratuita e honesta, vá para esse link_http://tiny.cc/capamirim<<<
O que aprendi com ele? Bem, que de fato as boas histórias estão na rua. E, mais importante, que temos de pensar na internet como um aliado, e não como uma ferramenta que nos trancafie dentro da redação. Isso, vindo de alguém que não tem e-mail, celular ou que não usa a internet pode soar estranho, mas estranhamente faz sentido.
O que ficou mais patente é que boas histórias serão sempre boas histórias. E que alguém tem que contá-las, porque há quem espere por elas. Para tornar isso algo mais real, acredito que devemos apenas saber adaptar boas histórias às mídias certas. Que vida vale um post, que acontecimento vale uma página, que notícia vale 140 caracteres no Twitter?
Essa pergunta fica no ar, o que é ótimo. Regras ainda não formadas permitem o risco. Arriscar é bom - e parece que essa alternativa vai perdendo força conforme vamos ganhando experiência. Quase uma praga.
E, por fim, encerro com o que o escritor disse, ainda há pouco: "Acredito que um dia haverá dinheiro para sustentar qualidade [editorial]". Há conversas, palestras, entrevistas que mais confundem do que explicam. É que uma nova opinião, um novo pensamento está por se formar. E assim vamos vivendo. Nesse sentido, tudo é burilamento.
quinta-feira, julho 02, 2009
E o homem sucumbe à informação
Tem ideias que me atormentam. Tanto que tenho uma listinha de assuntos organizados em rascunhos na administração do blog. Ou porque deu preguiça de escrever, ou porque faltou tempo, ou só porque não é a hora.
Mas tem uma coisa que me incomoda um tanto. Desde que comecei a trabalhar e tive que estudar ao mesmo tempo, comecei a ficar atormentado com o fluxo de informações. Eu não entendia (e não conseguia processar) que além de ler um texto de 40 páginas sobre a Escola de Frankfurt, ainda teria que fazer umas 30 ligações e mandar um sem-número de emails depois da aula. Mas como? Sempre lembrava - e ainda lembro - da minha professora de artes da primeira série dizendo: faz o mais difícil antes e depois mata os mais fáceis depois, rapidinho. Pena que a vida não é um exercício de recortar e colar.
O tempo foi passando e eu fui me acostumando. O que quer dizer que eu passei a trabalhar mais em detrimento da faculdade. Tudo muito bem, tudo muito bom, a vida correndo em paralelo às mil atividades. Outros acontecimentos sem qualquer relação com o trabalho alterando o dia a dia de um jovem estudante.
Até que eu descobri o Google Reader, serviço de RSS. Faz o quê, uns dois anos? Acho que por aí. Passou um tempo, deixei de lado, e agora na Galileu passei a retomar o serviço. E a ideia de ter umas 200 novas notícias por hora é desesperador. Porque enquanto eu estou, sei lá, entrevistando alguém ou reclamando do meu computador para o Help Desk, a Folha Online, o G1 e os 20 blogs que eu sigo estão me mandando informações.
E enquanto eu estou escrevendo aqui, outras 2 mil noticias me esperam, nervosas para serem lidas naquela interface padronizada do Google. A informação é muita, e nossa função é hierarquizar, traduzir e dizer porque aquilo é importante para o nosso leitor. Ok, já entendi a parte técnica da coisa.
Mas e eu, como fico? A vontade é ficar testando os limites físicos e ficar a maior parte do tempo vendo as notícias do Google Reader chegando. Mas me pergunto: até que ponto não ganho muito mais passando um final de semana na praia ou uma tarde toda entrevistando um personagem bacana? Quando tenho que parar de acumular repertório e começar a confrontá-lo com os demais?
São inquietações que provavelmente não existiam no mundo cartesiano de décadas atrás. As décadas pré internet.
Afinal de contas, isso me faz pensar se não deveria priorizar mais as vivências (de qualquer tipo) do que as informações e, desse modo, ser alguém mais completo para a vida. E para o trabalho. E para todo o resto.
E aí caio em outro ponto. Se me esforçar ao máximo, sempre reavivar os contatos com pessoas queridas, estar sempre muito bem informado, arrumando tudo da casa, organizando o caos do cotidiano; isso tudo não vai me exigir mais? Mais tempo para os amigos e para os papos de mesa de bar, para os compromissos do trabalho, para as coisas da casa... E isso vai aumentando, aumentando, aumentando, aumentando até que sucumbimos.
A questão é: o homem está usando sua capacidade máxima de absorção e intelecção de ideias? Isso faz bem? Quais as consequências disso? Onde vamos (ou não) parar?
Não sei. Espero que o final de semana na Flip, em Parati, me afaste dessa rotina frenética e me ajude a por a cabeça no lugar. Da próxima vez, espero um post menos atormentado e mais poético, influenciado pela convivência na charmosa cidade fluminense. E só para recordar e reforçar, meu primeiro conto de ficção publicado sai na CRESCER de julho. É sobre a amizade de olhos livres. Espero que quem ler, goste. A ideia é essa.
até logo. da próxima vez, com menos complexidades e mais poesia.
Mas tem uma coisa que me incomoda um tanto. Desde que comecei a trabalhar e tive que estudar ao mesmo tempo, comecei a ficar atormentado com o fluxo de informações. Eu não entendia (e não conseguia processar) que além de ler um texto de 40 páginas sobre a Escola de Frankfurt, ainda teria que fazer umas 30 ligações e mandar um sem-número de emails depois da aula. Mas como? Sempre lembrava - e ainda lembro - da minha professora de artes da primeira série dizendo: faz o mais difícil antes e depois mata os mais fáceis depois, rapidinho. Pena que a vida não é um exercício de recortar e colar.
O tempo foi passando e eu fui me acostumando. O que quer dizer que eu passei a trabalhar mais em detrimento da faculdade. Tudo muito bem, tudo muito bom, a vida correndo em paralelo às mil atividades. Outros acontecimentos sem qualquer relação com o trabalho alterando o dia a dia de um jovem estudante.
Até que eu descobri o Google Reader, serviço de RSS. Faz o quê, uns dois anos? Acho que por aí. Passou um tempo, deixei de lado, e agora na Galileu passei a retomar o serviço. E a ideia de ter umas 200 novas notícias por hora é desesperador. Porque enquanto eu estou, sei lá, entrevistando alguém ou reclamando do meu computador para o Help Desk, a Folha Online, o G1 e os 20 blogs que eu sigo estão me mandando informações.
E enquanto eu estou escrevendo aqui, outras 2 mil noticias me esperam, nervosas para serem lidas naquela interface padronizada do Google. A informação é muita, e nossa função é hierarquizar, traduzir e dizer porque aquilo é importante para o nosso leitor. Ok, já entendi a parte técnica da coisa.
Mas e eu, como fico? A vontade é ficar testando os limites físicos e ficar a maior parte do tempo vendo as notícias do Google Reader chegando. Mas me pergunto: até que ponto não ganho muito mais passando um final de semana na praia ou uma tarde toda entrevistando um personagem bacana? Quando tenho que parar de acumular repertório e começar a confrontá-lo com os demais?
São inquietações que provavelmente não existiam no mundo cartesiano de décadas atrás. As décadas pré internet.
Afinal de contas, isso me faz pensar se não deveria priorizar mais as vivências (de qualquer tipo) do que as informações e, desse modo, ser alguém mais completo para a vida. E para o trabalho. E para todo o resto.
E aí caio em outro ponto. Se me esforçar ao máximo, sempre reavivar os contatos com pessoas queridas, estar sempre muito bem informado, arrumando tudo da casa, organizando o caos do cotidiano; isso tudo não vai me exigir mais? Mais tempo para os amigos e para os papos de mesa de bar, para os compromissos do trabalho, para as coisas da casa... E isso vai aumentando, aumentando, aumentando, aumentando até que sucumbimos.
A questão é: o homem está usando sua capacidade máxima de absorção e intelecção de ideias? Isso faz bem? Quais as consequências disso? Onde vamos (ou não) parar?
Não sei. Espero que o final de semana na Flip, em Parati, me afaste dessa rotina frenética e me ajude a por a cabeça no lugar. Da próxima vez, espero um post menos atormentado e mais poético, influenciado pela convivência na charmosa cidade fluminense. E só para recordar e reforçar, meu primeiro conto de ficção publicado sai na CRESCER de julho. É sobre a amizade de olhos livres. Espero que quem ler, goste. A ideia é essa.
até logo. da próxima vez, com menos complexidades e mais poesia.
>>>a foto aí de cima é usada sob licença Creative Commons. Para conhecer melhor o trabalho desse artista que acredita no compartilhamento de conteúdo de forma gratuita e honesta, vá para esse link_ http://tiny.cc/capamirim <<<
domingo, junho 07, 2009
A ética da lágrima
Um dia (outro dia, na verdade, bem quando retomei O Mirim), falei daqueles assuntos que caem no nosso colo, sem que a gente queira ou espere que eles caiam. Pois essa semana aconteceu de novo. E tudo no mesmo dia. (Ante)ontem, sexta-feira.
Logo pela manhã, rolou minha primeira entrevista (a segunda desse tipo) com uma vítima de pedofilia. A entrevista fará parte do meu TCC, que entrego no meio do semestre que vem. A diferença entre a de sexta-feira e a outra, feita pela Carol e pela Bia, é que, da primeira vez, se tratava de uma criança violentada há pouco tempo. E por isso a mãe e o avô foram os entrevistados. Mas na sexta o personagem era uma mulher de 45 anos. Crescida e, portanto, apta e disposta a falar sobre o trauma que sofreu na infância.
Tudo transcorreu relativamente bem, dentro das possibilidades. A entrevista rolando, um bom câmera filmando, luz ok, entrevistada com boa oratória. Mais para o final, com mais de 40 minutos de entrevista, lanço uma pergunta delicada - as mais difíceis de se fazer sempre ficam para o fim, por uma questão prática (se o entrevistado quiser parar o papo ali, ao menos já se tem grande parte do conteúdo).
Pedi que ela contasse como tinha ficado a relação dela com o pai, o abusador, depois da fase adulta.
A história é comovente. Já velho, o pai, antes envolvido com drogas e álcool, se refugiara em outro estado. Não mantinham contato, vítima e abusador, por questões óbvias. Eis que uma doença o acomete, e somente em SP ele teria tratamento adequado. Só a casa da filha, vítima sua com 11 anos, poderia acolher o doente.
Num ato de coragem e altruísmo, ela aceitou o pai em casa. Não se viam. Ela passou meses saindo do quarto apenas para pegar comida, amedrontada pelas lembranças da infância interrompida. A medicação do pai ficava a cargo de seus (muitos) filhos. Até o dia em que ele pediu um abraço. Para a neta de cinco anos. Cinco. Ela fora abusada aos onze.
O que fazer? Era um pedido sincero de abraço? Valeria arriscar a integridade da própria filha para não ter que lidar com o trauma?
Ela, então, saiu do casulo. A curta distância entre seu quarto e o do pai levou longos 40 minutos para ser percorrida. Muita coisa veio à tona. O medo, a raiva, tudo. Ela enfrentou tudo.
Nas palavras dela, ao menos pelo que registraram meus ouvidos: "Quando olhei para ele, naquela cadeira de rodas, ele já não era aquele homem forte de antes, já não trazia as feições antigas, seu rosto estava magro. Ele era mais frágil do que eu pensava. Era um homem doente". Pediu um abraço, pediu perdão por tudo. Ela o abraçou - e o perdoou.
Ouvi a tudo isso a um metro de distância, ao som de um choro fundo e forte, de quem resgata algo lá de longe e de dentro. E eu impassível, aparentemente insensível, vi a fatídica lágrima cair até a maçã do rosto, realçada pelo contra-luz armado para a filmagem. Quis chorar. Me contive para não perder o controle da entrevista.
Mas me pus em xeque. Eu tinha o direito de remexer no passado de uma desconhecida, mesmo que ela aceitasse? E por que me segurei? Será que meu choro, uma lágrima que fosse, não era a forma mais sincera de dizer que eu me solidarizava a ela, que compartilhava daquela dor? Mesmo sem ter ideia do tamanho daquilo, eu não DEVERIA ter demonstrado algo?
Essa pergunta foi embora, até que me pus sozinho, a caminho do trabalho. Não passamos incólumes às situações do dia-a-dia. Nós somos transformados, para o bem e para o mal, pelos fatos do cotidiano. E então esse questionamento ficava indo e voltando, o tempo todo.
Paralelamente, à tarde, estava curioso para pegar a Época dessa semana, que saiu mais cedo em virtude do acidente do Air France 447. Só consegui meu exemplar ao final do dia. De volta para casa, dei uma folheada na revista e parei na coluna da Ruth de Aquino, que sempre fecha a edição. Tenho uma simpatia especial pela coluna, que sempre trata de maneira delicada ou indignada (sempre bem opinativa) sobre o acontecimento mais relevante da semana.
E o tema que fechava a coluna dessa semana era justamente sobre esse sentimento que bateu à minha porta naquele dia. A ética do choro. Encerro o post de hoje com a reprodução do trecho final da coluna, que traduziu (e me fez concluir) o sentimento gerado por situações como essa:
"Se um psicanalista, por profissão, precisa racionalizar a dor alheia para confortar, um jornalista precisa agir como, para contar a dor de seus entrevistados? Abstrair-se completamente? Ficar frio? A repórter Martha Mendonça, que ajudou a resgatar histórias das vítimas [do voo 447 para Época], escreveu no blog Mulher 7x7, de Época: "A pior parte de ser jornalista é falar com familiares de alguém que acaba de morrer em situação trágica. Já entrevistei mães faveladas com filhos embaixo dos escombros depois da chuva. Os pais de uma menina que morreu de bala perdida. Mães de crianças desaparecidas e pais de meninos assassinados. Não foram poucas as vezes em que chorei. Sem perder o controle. Não é ético o jornalista que mostra que se importa?""
Eu chorei, atrasado, na sexta à noite, sentado no sofá de casa, quando li a última frase do trecho acima. E agora, de novo, relendo e revisando o post.
Logo pela manhã, rolou minha primeira entrevista (a segunda desse tipo) com uma vítima de pedofilia. A entrevista fará parte do meu TCC, que entrego no meio do semestre que vem. A diferença entre a de sexta-feira e a outra, feita pela Carol e pela Bia, é que, da primeira vez, se tratava de uma criança violentada há pouco tempo. E por isso a mãe e o avô foram os entrevistados. Mas na sexta o personagem era uma mulher de 45 anos. Crescida e, portanto, apta e disposta a falar sobre o trauma que sofreu na infância.
Tudo transcorreu relativamente bem, dentro das possibilidades. A entrevista rolando, um bom câmera filmando, luz ok, entrevistada com boa oratória. Mais para o final, com mais de 40 minutos de entrevista, lanço uma pergunta delicada - as mais difíceis de se fazer sempre ficam para o fim, por uma questão prática (se o entrevistado quiser parar o papo ali, ao menos já se tem grande parte do conteúdo).
Pedi que ela contasse como tinha ficado a relação dela com o pai, o abusador, depois da fase adulta.
A história é comovente. Já velho, o pai, antes envolvido com drogas e álcool, se refugiara em outro estado. Não mantinham contato, vítima e abusador, por questões óbvias. Eis que uma doença o acomete, e somente em SP ele teria tratamento adequado. Só a casa da filha, vítima sua com 11 anos, poderia acolher o doente.
Num ato de coragem e altruísmo, ela aceitou o pai em casa. Não se viam. Ela passou meses saindo do quarto apenas para pegar comida, amedrontada pelas lembranças da infância interrompida. A medicação do pai ficava a cargo de seus (muitos) filhos. Até o dia em que ele pediu um abraço. Para a neta de cinco anos. Cinco. Ela fora abusada aos onze.
O que fazer? Era um pedido sincero de abraço? Valeria arriscar a integridade da própria filha para não ter que lidar com o trauma?
Ela, então, saiu do casulo. A curta distância entre seu quarto e o do pai levou longos 40 minutos para ser percorrida. Muita coisa veio à tona. O medo, a raiva, tudo. Ela enfrentou tudo.
Nas palavras dela, ao menos pelo que registraram meus ouvidos: "Quando olhei para ele, naquela cadeira de rodas, ele já não era aquele homem forte de antes, já não trazia as feições antigas, seu rosto estava magro. Ele era mais frágil do que eu pensava. Era um homem doente". Pediu um abraço, pediu perdão por tudo. Ela o abraçou - e o perdoou.
Ouvi a tudo isso a um metro de distância, ao som de um choro fundo e forte, de quem resgata algo lá de longe e de dentro. E eu impassível, aparentemente insensível, vi a fatídica lágrima cair até a maçã do rosto, realçada pelo contra-luz armado para a filmagem. Quis chorar. Me contive para não perder o controle da entrevista.
Mas me pus em xeque. Eu tinha o direito de remexer no passado de uma desconhecida, mesmo que ela aceitasse? E por que me segurei? Será que meu choro, uma lágrima que fosse, não era a forma mais sincera de dizer que eu me solidarizava a ela, que compartilhava daquela dor? Mesmo sem ter ideia do tamanho daquilo, eu não DEVERIA ter demonstrado algo?
Essa pergunta foi embora, até que me pus sozinho, a caminho do trabalho. Não passamos incólumes às situações do dia-a-dia. Nós somos transformados, para o bem e para o mal, pelos fatos do cotidiano. E então esse questionamento ficava indo e voltando, o tempo todo.
Paralelamente, à tarde, estava curioso para pegar a Época dessa semana, que saiu mais cedo em virtude do acidente do Air France 447. Só consegui meu exemplar ao final do dia. De volta para casa, dei uma folheada na revista e parei na coluna da Ruth de Aquino, que sempre fecha a edição. Tenho uma simpatia especial pela coluna, que sempre trata de maneira delicada ou indignada (sempre bem opinativa) sobre o acontecimento mais relevante da semana.
E o tema que fechava a coluna dessa semana era justamente sobre esse sentimento que bateu à minha porta naquele dia. A ética do choro. Encerro o post de hoje com a reprodução do trecho final da coluna, que traduziu (e me fez concluir) o sentimento gerado por situações como essa:
"Se um psicanalista, por profissão, precisa racionalizar a dor alheia para confortar, um jornalista precisa agir como, para contar a dor de seus entrevistados? Abstrair-se completamente? Ficar frio? A repórter Martha Mendonça, que ajudou a resgatar histórias das vítimas [do voo 447 para Época], escreveu no blog Mulher 7x7, de Época: "A pior parte de ser jornalista é falar com familiares de alguém que acaba de morrer em situação trágica. Já entrevistei mães faveladas com filhos embaixo dos escombros depois da chuva. Os pais de uma menina que morreu de bala perdida. Mães de crianças desaparecidas e pais de meninos assassinados. Não foram poucas as vezes em que chorei. Sem perder o controle. Não é ético o jornalista que mostra que se importa?""
Eu chorei, atrasado, na sexta à noite, sentado no sofá de casa, quando li a última frase do trecho acima. E agora, de novo, relendo e revisando o post.
terça-feira, maio 19, 2009
Porque tem dia que é dia de escrever
Hoje vou escrever mais. Mais porque passei o dia todo escrevendo. E tem dia que é assim, uma reta ascendente. Começa com uma caneta e um caderno, na faculdade, às 8h, 10h da manhã e vai manhã, tarde adentro e começo de noite também.
Hoje foi tipo isso. E esse post é, sim, meio "Querido Diário...". É a vida. Nem só de ficção se vive a vida, oras.
Além de ter ficado (por que quis) até quase 1h ontem na "firrrrrrma", cheguei hoje e trabalhei que nem um débil mental. Achando que ia ser pé nas costas. Mas aí foi. Emendava um email naquela nota atrasada, atendia dois ou três telefonemas (ora a TVA marcando instalação dos pontos pra sexta, ora a advogada da dona do ape), voltava para a nota, mas esquecia do email. Aí decidia ligar, ligava, voltava para a nota (a nota, a nota). Fecha isso na página. Corta mais.
E as outras notas? Mais notas! Notas! Mas e as fotos?! Sim... Oi, quero fotos, me manda? Valeu, beijos. E aí já era 16h. E minha teoria de que, na verdade, o ínterim entre 16h e 19h não tem três horas, mas 30 minutos, se comprovou. Pronto. Sete da noite, e faltava escrever as notas. Sete e quinze, tudo escrito, entregue, chefe feliz... Mais uns cinco emails. Passando uma entrevista para outro fazer, agradecendo a agilidade de um assessor de imprensa (e é sempre bom reforçar e parabenizá-los por isso, porque eles sempre tendem a ser lentos. Tipo 'oficializa isso pra mim por email, por gentileza?'. Uhhhhh...), deletando aqueles inúteis. Aí aproveito para deletar ítens inúteis de cima da mesa, depois organizo o que sobrou e... rua. Hoje saí cedo, 19h35.
Mas teve mais. Em casa às 21h, após, digamos assim, cumprir compromisso com a divindade, respondi mais uns quatro emails pessoais/TCC/faculdade. E vim escrever por aqui.
Tudo para concluir que tem dia, que nem hoje, que é dia de escrever. Praticamente como o pasteleiro, um pastel atrás do outro. Mas tudo bem, me sinto bem por isso. E ter consciência feliz e tranquila no final do dia é sinal de que estamos sempre no caminho certo.
Mas por hoje é só, que agora preciso desligar a TV (Casseta e Planeta cheira a naftalina) e ler Hamlet, que parece mais contemporâneo que a turma do Bussunda.
Hasta.
Hoje foi tipo isso. E esse post é, sim, meio "Querido Diário...". É a vida. Nem só de ficção se vive a vida, oras.
Além de ter ficado (por que quis) até quase 1h ontem na "firrrrrrma", cheguei hoje e trabalhei que nem um débil mental. Achando que ia ser pé nas costas. Mas aí foi. Emendava um email naquela nota atrasada, atendia dois ou três telefonemas (ora a TVA marcando instalação dos pontos pra sexta, ora a advogada da dona do ape), voltava para a nota, mas esquecia do email. Aí decidia ligar, ligava, voltava para a nota (a nota, a nota). Fecha isso na página. Corta mais.
E as outras notas? Mais notas! Notas! Mas e as fotos?! Sim... Oi, quero fotos, me manda? Valeu, beijos. E aí já era 16h. E minha teoria de que, na verdade, o ínterim entre 16h e 19h não tem três horas, mas 30 minutos, se comprovou. Pronto. Sete da noite, e faltava escrever as notas. Sete e quinze, tudo escrito, entregue, chefe feliz... Mais uns cinco emails. Passando uma entrevista para outro fazer, agradecendo a agilidade de um assessor de imprensa (e é sempre bom reforçar e parabenizá-los por isso, porque eles sempre tendem a ser lentos. Tipo 'oficializa isso pra mim por email, por gentileza?'. Uhhhhh...), deletando aqueles inúteis. Aí aproveito para deletar ítens inúteis de cima da mesa, depois organizo o que sobrou e... rua. Hoje saí cedo, 19h35.
Mas teve mais. Em casa às 21h, após, digamos assim, cumprir compromisso com a divindade, respondi mais uns quatro emails pessoais/TCC/faculdade. E vim escrever por aqui.
Tudo para concluir que tem dia, que nem hoje, que é dia de escrever. Praticamente como o pasteleiro, um pastel atrás do outro. Mas tudo bem, me sinto bem por isso. E ter consciência feliz e tranquila no final do dia é sinal de que estamos sempre no caminho certo.
Mas por hoje é só, que agora preciso desligar a TV (Casseta e Planeta cheira a naftalina) e ler Hamlet, que parece mais contemporâneo que a turma do Bussunda.
Hasta.
quarta-feira, abril 29, 2009
A força do personagem
Ontem assisti à uma palestra esclarecedora. Uma das melhores que já vi; certamente a mais instrutiva de que tenho notícia. Era com a Eliane Brum, repórter da Época. Basicamente, foram duas horas e meia de conversa sobre como mostrar grandes personagens sem resvalar no clichê. E não me refiro a celebridades, artistas ou qualquer ser que esteja presente nas páginas de revistas de fofoca. São os ilustres desconhecidos do cotidiano, tão bem registrados por ela.
Mas o que mais me chamou atenção é que a capacidade de encontrar boas histórias está intimamente ligada à disponibilidade de quem as conta. Ou seja, o repórter (ou quem mais queira contar uma história, num sentido mais amplo) precisa estar disposto a entrar em contato com o outro.
E estar em contato com o outro é se colocar em contato consigo mesmo. Como disse Eliane, poeticamente, "temos que estar abertos ao espanto". Temos que confrontar nossas fissuras; é um constante se colocar em xeque. É quase uma terapia. E aí é possível entender o que ela dissera um pouco antes: "Só quem é frágil e finito pode contar histórias". Faz sentido.
Ficou claro, também, que boas histórias acabam sendo contadas por pessoas boas, no sentido mais amplo da palavra. Não me refiro só a competência, nem só técnica. São importantes, mas muito fáceis de se adquirir se a compararmos aos sentimentos que algumas pessoas mostram, mesmo sem se deixar ver.
Pessoas que não precisam de credenciais para entrar na casa dos mais simples cidadãos e ouvir suas histórias. Pessoas que dizem mais pelo que são do que mostram ser. Pessoas que conseguem enxergar além. Por fim, uma alegoria ótima para se começar a quarta-feira, citada por Eliane: "O cotidiano é uma catarata que nos cega dia a dia".
Fica, além de um bom dia, o desejo sincero de não querer se cegar pela catarata do dia a dia. E, cada vez mais, conseguir contar boas histórias, grandes histórias, de pessoas que nos parecem pequenas, miúdas, mas que acabam se tornando grandes lições de vida. Sem cair no clichê, nem soar piegas.
Mas o que mais me chamou atenção é que a capacidade de encontrar boas histórias está intimamente ligada à disponibilidade de quem as conta. Ou seja, o repórter (ou quem mais queira contar uma história, num sentido mais amplo) precisa estar disposto a entrar em contato com o outro.
E estar em contato com o outro é se colocar em contato consigo mesmo. Como disse Eliane, poeticamente, "temos que estar abertos ao espanto". Temos que confrontar nossas fissuras; é um constante se colocar em xeque. É quase uma terapia. E aí é possível entender o que ela dissera um pouco antes: "Só quem é frágil e finito pode contar histórias". Faz sentido.
Ficou claro, também, que boas histórias acabam sendo contadas por pessoas boas, no sentido mais amplo da palavra. Não me refiro só a competência, nem só técnica. São importantes, mas muito fáceis de se adquirir se a compararmos aos sentimentos que algumas pessoas mostram, mesmo sem se deixar ver.
Pessoas que não precisam de credenciais para entrar na casa dos mais simples cidadãos e ouvir suas histórias. Pessoas que dizem mais pelo que são do que mostram ser. Pessoas que conseguem enxergar além. Por fim, uma alegoria ótima para se começar a quarta-feira, citada por Eliane: "O cotidiano é uma catarata que nos cega dia a dia".
Fica, além de um bom dia, o desejo sincero de não querer se cegar pela catarata do dia a dia. E, cada vez mais, conseguir contar boas histórias, grandes histórias, de pessoas que nos parecem pequenas, miúdas, mas que acabam se tornando grandes lições de vida. Sem cair no clichê, nem soar piegas.
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